Conheça minhas escritas
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17 de junho, 2026
Existe uma qualidade no silêncio das manhãs que nenhuma palavra consegue descrever com exatidão. É a sensação de estar suspenso entre o que foi e o que virá — um intervalo breve onde o tempo parece respirar.
Escrevo isso enquanto o café esfria e a luz ainda é fria e azul. Dentro de pouco, o mundo vai se acender e esse momento vai embora. Mas enquanto dura, é perfeito.
01 de junho, 2026
Tinha um mapa velho que meu avô guardava numa gaveta. Nunca fechava direito — as dobras nunca coincidiam, e havia sempre uma cidade sobrando do lado de fora.
Ele dizia que era proposital. "Todo mapa bom tem um lugar que não cabe." Levei anos para entender o que ele quis dizer.
22 de junho, 2026
Quando lembro do Habbo Hotel, não lembro dos câmbios, dos raros ou das moedas. A primeira coisa que vem à mente é um patinho.
Eu chegava da escola, ligava o computador, geralmente apertando o botão com o dedão do pé enquanto largava a mochila, e entrava no Habbo. O computador não era grande coisa, daqueles que demoravam para abrir qualquer coisa, mas cumpria sua missão.
Eu não tinha muitos amigos na vida real. Talvez por isso aquele hotel de pixels significasse tanto para mim.
Passava horas decorando quartos. Mudava móveis de lugar, testava combinações e imaginava histórias para cada canto. Mas havia uma regra que nunca mudava: em todo quarto existia um patinho da coleção de Halloween. Era um item simples, daqueles em que dava para sentar, mas para mim era especial. Não importava quantas vezes eu reformasse tudo, ele sempre encontrava um lugar.
Na maior parte do tempo eu ficava sentado nele esperando alguém aparecer.
Então um amigo logava.
Ele entrava no quarto, sentava em algum sofá e eu me levantava do patinho, caminhava até a cafeteira e entregava um café virtual para ele. Hoje parece bobo. Na época parecia hospitalidade.
E então conversávamos.
Sobre a escola, sobre o jogo, sobre coisas importantes e sobre assuntos que não significavam absolutamente nada. As horas passavam rápido demais. Quando eu percebia, já era noite. Às vezes mal sobrava tempo para responder as perguntas do Ask.fm, que também fazia parte da minha rotina quando estava online.
O mais engraçado é que eu nem lembro exatamente sobre o que conversávamos. Lembro da sensação. Lembro de abrir o jogo e encontrar alguém esperando para passar a tarde comigo naquele quarto que eu tinha decorado com tanto cuidado.
Estávamos apenas juntos. Talvez seja por isso que sinto tanta saudade daquela época. Não por causa do Habbo Hotel em si, mas porque existiu um momento da internet em que sentar em um patinho de Halloween e esperar um amigo aparecer era o suficiente para transformar uma tarde comum em uma boa lembrança.
15 de maio, 2026
A chuva de maio chegou sem aviso e encharcou tudo que eu tinha deixado do lado de fora: as esperanças, os planos, a cadeira de jardim. Não me arrependi de nenhum deles.
02 de maio, 2026
Há uma beleza estranha nos finais. Quando o livro acaba, quando a série termina, quando a estação muda. Existe uma leveza no luto das coisas que nunca mais voltam.
Talvez seja porque os finais nos lembram que existimos dentro do tempo — que também somos temporários, e isso é tudo bem.